Ned Trail – da ideia a construção

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Conceito

Criar trilhas de mountain bike pensando em proporcionar experiências, sensações, sentimento de realização e superação.  Assim agimos em cada projeto no Zoom Bike Park em Campos do Jordão.

Muitos ciclistas experientes vinham pedindo algo diferente para o Zoom Bike Park, trilhas em que houvessem principalmente possibilidade de saltos. Algo que não seria tão desafiante se não pensássemos em uma gama maior de pessoas.  Queremos que cada  trilha seja acessível para muitos e que não atenda apenas aos pilotos mais experientes.

A provocação de um parceiro

Um dos parceiros do Zoom Bike Park de Campos do Jordão,  a Specialized Brasil, começou a nos “provocar”, dizendo que queriam patrocinar um projeto de uma trilha que extraísse o melhor das “trail bikes”, que em vários momentos tirasse o ciclista com sua mountain bike do chão e que o sistema “full suspension” fizesse diferença. Uma trilha que tivesse a força de trazer ainda mais pessoas para o Mountain Bike.

Em dezembro de 2015, eu Marcio Prado e o César Roberto buscamos no mapa e no terreno, uma linha que fosse de algum ponto alto do Zoom Bike Park e chegasse até a beira do rio, parte mais baixa da área. Encontrar uma linha longa em descida foi o primeiro passo.  Já tínhamos uma idéia antiga e resolvemos investir nela.

Do papel para o mato!

Fomos a campo por 4 dias seguidos para checar em detalhes o que seria possível. Estes 4 dias foram despendidos apenas na parte de mata, onde tínhamos pouca visibilidade devido a densa vegetação de vários trechos. Levávamos em torno de 30 minutos para percorrer menos de 100 metros. Se dava certo, isto é, o terreno permitia prosseguir, seguíamos. Mas às vezes encontrávamos situações do relevo que não permitiam seguir pela linha imaginada. Queríamos evitar subidas, não queríamos encurtar distâncias e às vezes encontrávamos trechos muito inclinados, que poderiam ser perigosos e causariam problemas de erosão, o que somos ávidos a evitar, seguindo  os melhores manuais de boas práticas para construção de trilhas para mountain bike.

Alguns momentos eram frustrantes, pois a linha que estabelecíamos atrás, parecia perfeita, mas deparávamos com problemas como os citados, que faziam com que precisássemos voltar e descobrir outra linha que permitisse passar por determinado obstáculo, ora mais acima, ora mais abaixo. Em mata fechada fazíamos  um verdadeiro pente fino para ligar os pontos, era um trabalho de varredura do terreno bem árduo, por conta da grande quantidade de mosquitos e densa vegetação formada por um tipo de bambu chamado de carafá, comum nas matas da Mantiqueira. Nestes quatro dias foi estabelecida uma linha, um corredor por onde a trilha passaria, mas sem detalhamento. Uma picada foi aberta por mim e pelo César e o projeto passou uns meses na gaveta.

Do mato para o papel!

Em Julho de 2016, o Marcelo Catalan da Specialized solicitou o orçamento para valer. Em agosto eu e o César voltamos para o mato e começamos a detalhar o desenho da trilha. A linha era muito boa, porém havia alguns problemas em certos pontos que se tornariam oportunidades, como  a passagem por uma grota (local de drenagem natural do terreno, onde geralmente formam-se nascentes e é muito úmido), que teria uma descida íngreme em local de solo muito frágil.

Em uma das incursões na mata, nós sentamos na borda desta grota para fazer um lanche, enquanto macacos faziam a festa sobre nós, atirando galhos e fazendo, digamos, sujeira… Quebrávamos a cabeça, pois se não conseguíssemos transpor esta grota, teríamos que fazer praticamente um traçado novo e uma área incrível do terreno, logo adiante nesta mesma linha, perderia a utilidade. Eu perguntei ao César: _ Você manda a construção de uma ponte pênsil aqui, não manda? Ele respondeu que a distância era grande demais e que a estrutura ficaria muito para um local de solo muito fofo… Um minuto em silêncio e olhando para a grota… Eu disse:  _ César, aquela árvore no meio da grota é grande e parece forte, não daria para criar uma estrutura de arborismo, na qual a árvore ficaria super protegida e sustentaria duas metades da pênsil? Assim o peso seria dividido em dois… O César coçou a cabeça, com a expressão bem séria e disse: _ É, dá! Mas vai custar bem caro, vai material pra caramba!

Problemas se tornam oportunidades no Zoom

 

Seguiu-se o plano, mas para cada possibilidade legal uma dúvida. As estruturas em madeira surgiam como necessidade para tornar viável a passagem por aquele traçado de trilha  e em cada metro eram pensadas possibilidades para curtir com as mountain bikes, mas minimizando o impacto que a trilha poderia causar. Foram mais 6 dias neste processo que somaram mais de 200 horas de trabalho.

Na sequência, foram muitas e muitas horas dedicadas pelo César a fazer desenhos, esquemas e cálculos para a compra dos materiais, locação de máquinas, pensar na logística de como levar o material para os locais de construção, etc. Em Setembro de 2015, o orçamento foi aprovado e começávamos a nos preparar, a trilha deveria ser entregue em meados de janeiro de 2016 e o tempo parecia suficiente. Sabíamos que este projeto nos tomaria, então, antes de iniciar, fizemos uma super manutenção nas demais trilhas e em meados de outubro de 2015 iniciamos.

Aprofundando no conceito e afinando o planejamento da construção da trilha

Nas nossas andanças definimos um conceito para esta trilha: Diversidade e variedade. Diversidade de estilos de trilha, diversidade de ambientes e variedade de obstáculos. O traçado inicia em ponto alto da fazenda, em campo de altitude, desce e entra em uma floresta de Araucárias, com muitos pinhos bravos, diversas árvores de mata atlântica e samambaiaçus. Saindo da mata a trilha entra em uma várzea, um grande brejo com cambuís e algumas grandes Araucárias também, percorre a margem do rio Sapucaí e chega a estradinha que dá acesso ao Zoom Bike Park, na parte mais baixa da área da fazenda Rancho Santo Antônio. E nesta diversidade de ambiente pensamos em uma grande variedade de obstáculos para as mountain bikes, tanto construídos como naturais. O início da trilha inspirado em pistas de pump, com rollers, mesas, curvas em parede, na sequência mescla com um trecho rústico, passando por pequenas e antigas erosões. Logo ela volta a ser toda projetada, mas com uma dose de desafios, como calçamento em curvas, curvas em madeira, rampas para rolagem e para saltos. Antes de chegar na várzea, encontra novamente uma antiga trilha de cavalos, com pequenas valetas, degraus e raízes. Chegando na várzea às margens do rio, um trecho plano, cheio de curvas suaves entre pequenas árvores e passarelas sobre áreas alagadas. Esta era a idéia que se tornou projeto de mais uma trilha de mountain bike no Zoom Bike Park em Campos do Jordão.

Começa a nascer uma nova trilha de Mountain Bike

A primeira fase da obra  iniciou com uma nova experiência, a construção mecanizada. O César pilotava uma mini escavadeira, de um metro de largura, podendo ser reduzida para 80 cm. Este recurso se mostrou uma ótima ferramenta para trabalhar no campo. O Jé e o Felipinho vinham depois da máquina nos acabamentos e  eu  junto com o césar resolvendo questões de adaptação do traçado à frente.

Em duas semanas de trabalho a trilha chegou na mata, deixamos a máquina e a construção passou a ser como estamos habituados, na enxada, a forma artesanal de se construir uma trilha de mountain bike. Em alguns pontos na mata havíamos marcado 2 opções de traçado e conforme avançávamos surgiam dúvidas que às vezes nos levavam a uma terceira opção. E às vezes a melhor opção nos colocava em algum trecho muito estreito em barranco, o que exigia que realizássemos intervenções para sustentação do terreno. É comum encontrarmos grandes troncos caídos e pedaços destas madeiras eram úteis para construir contenções e acertar a trilha. Mover peças pesadas de troncos requer não só força bruta, mas também uso de ferramentas específicas e estratégia. Este tipo de intervenção, usando de materiais locais, torna a trilha mais orgânica, mais integrada à natureza.

Adaptação ao terreno: soluções em prol da durabilidade

Assim que deixamos as primeiras curvas em descida abertas, notamos o solo com grande concentração de matéria orgânica e muito úmido. Já em dezembro de 2016, as chuvas começaram a dar o ar da graça, vimos o solo se tornar ainda mais instável e acrescentamos ao projeto da trilha, o calçamento com “piso-grama”, uma peça de concreto permeável, com a função de segurar o solo diante de frenagens excessivas ocasionadas por pilotos de mountain bike menos experientes.

Mais um problema que encontramos que transformamos em oportunidade: as curvas. Conseguimos fazer isto criando uma inclinação positiva, dando mais sustentação e proporcionando além de velocidade, uma textura diferente à superfície para sentir com a mountain bike.

Algumas situações só conseguíamos observar após criar o corredor da trilha, isto é, ter limpado a passagem roçando e podando galhos. Fomos bem conservadores, desviando de árvores, plantas maiores e cuidando para não cortar raízes grossas de árvores grandes e para isto criamos um tipo de “mata burro”, preenchido com terra para passar alguns conjuntos de raízes, algo que se tornou um obstáculo legal de passar ou saltar.

A ponte pênsil da árvore: uma obra paralela à construção da trilha

 

Ao chegar com a trilha na grota da futura ponte pênsil, uma obra a parte foi iniciada com a chegada de reforços na equipe: Fernando Zara, Thiago Raige, Josias Prestes, Wallisson Mota, Jonatha Figueiredo e uma turma bruta que nos auxiliou no transporte de materiais pesados, para esta e todas as outras estruturas. Para transportar materiais foi montada uma tirolesa de aproximadamente 80 metros de extensão, que certamente economizou uma semana de trabalho pesado.

A Ponte Pênsil levou 30 dias para ficar pronta, com uma equipe exclusiva, variando de 2 a 4 pessoas por dia. Pessoal com grande qualificação em trabalhos em altura e montagens de percursos de arborismo e tirolesas. A primeira grande preocupação foi a integridade da árvore pela qual a ponte passa. E não só pelo cuidado com ela, mas se ela vier um dia a cair, leva tudo e mais um pouco junto. Então, esta árvore foi ancorada em 4 direções e só neste procedimento foram usados 200 metros de cabos de aço. Assim a árvore suportará além de seu limite natural a força dos ventos e do tempo.

 

Apesar de um leão para lidar por dia com esta ponte pênsil, depois de umas 3 semanas de trabalho ela começou a tomar forma, mas, não era tão simples assim… o destino da ponte era uma encosta com terra muito fofa, com muita matéria orgânica e íngreme demais para ter uma trilha. Então mais uma estrutura foi pensada e instalada, uma passarela de 20 metros em uma encosta que acabava em outro “buraco”, uma vala de drenagem natural, o fundo de uma outra grota, apertado, íngreme demais para o nível desta trilha… aí seguimos com outra estrutura, uma passarela suspensa em curva. Três estruturas em sequencia, tornando-as quase únicas, encaixadas e harmonizando com a mata e o relevo.

Esta estrutura levaria os ciclistas e suas mountain bikes para o solo, naquele ponto bem frágil em velocidade, com necessidade de frenagem para uma curva ligeiramente apertada e exposta a altura de um barranco de 1,5 metros. Previmos erosão e instalamos em mais este trecho, os pisos grama, fazendo desta parte da trilha, provavelmente a mais bonita de todas.

Chuva intensa, trabalho intenso e tenso!

Já estávamos em janeiro de 2017, as chuvas começaram a pegar pesado, vários dias com poucas janelas de tempo sem água vindo do céu no decorrer do dia. Entrávamos nesta área de descida com solo frágil, e modelar a trilha nestas condições foi algo muito difícil, gastamos dez dias para fazer trabalho de dois. Com o cronograma prejudicado, tínhamos quatro equipes distintas: uma para ponte pênsil, que apesar de estar de pé, necessitava de uma série de ajustes,  outra para as estruturas de madeira da parte do meio da trilha na mata, uma equipe para a parte de enxada e outra focada a construir uma passarela passando sobre o brejo da baixada na margem do rio, na parte final da trilha.

Com o tempo passando, o clima de curtição por estar trabalhando no mato, um ambiente que nós curtimos muito, foi dando espaço para uma certa tensão. Tínhamos um compromisso e estava fora dos planos não cumprir com o combinado, um evento dependia disto.

Montamos  uma cobertura de lona no mato, que servia de abrigo para as ferramentas e para a equipe quando chovia “canivete” e outra sobre a estrutura de madeira que estava sendo construída, assim o trabalho seguia com um certo conforto térmico e mais segurança.

Faltando uma semana para a nova trilha de mountain bike do Zoom Bike Park ficar pronta, a equipe das passarelas sobre o brejo iniciava os trabalhos. O amigo Cido, com seu caminhãozinho, fez duas viagens de madeira até o borboletário, onde seria o final da trilha. Metade da turma transportava madeira ao pontos de construção e dois ou três, ora choravam e ora gargalhavam atolados no brejo, em alguns momentos até perto do joelho, com chuva e uma sensação real que o trabalho não estava rendendo. Até que fomos nos habituando com aquele lamaçal, era o que tínhamos e fizemos acontecer.

Neste final, a todo momento o César pegava o caderninho e ficava a conferir a quantidade de madeira que tínhamos, o quanto de passarelas poderíamos construir no final e o que precisaria ser comprado de material de última hora para não ficarmos parados em hipótese  alguma. Todos estavam exaustos, fisicamente e mentalmente. Na última semana as chuvas não davam trégua e inaugurar uma trilha tão especial naquelas condições seria horrível. Não adiantava pensar nisto e focamos no que precisava ser feito. A Trilha já tinha uma cara e o César e eu, debaixo de chuva fizemos a primeira descida até o local das passarelas na quarta feira antes da inauguração.

Chegamos na sexta feira que antecedeu a inauguração, com um monte de pequenas coisas a fazer: últimos ajustes da ponte pênsil, pequenas passarelas na parte central da trilha, o término das passarelas do brejo da beira do rio, uma repassada para acabamentos gerais de enxada e podas, colocação de piso grama em pontos críticos por conta de lama ou drenagem, aplicação de tela sobre as superfícies de madeira, colocação de placas e com a ajuda do Jamal, a montagem do portal de início da trilha.

Uma feliz homenagem

A trilha depois de certo debate, por consenso recebeu o nome de Ned Trail, para homenagear o primeiro campeão mundial de Mountain Bike, uma grande pessoa e atleta, o “The Captain”, “The Lung” como é apelidado Ned Overend. Ele que um ano antes visitou o Zoom Bike Park em um evento da Specialized, demonstrando ser mais, muito mais que um grande atleta, mas um grande ser humano.

Dia de inauguração, céu azul, retoques e trilha aberta ao público do Zoom Bike Park e Specialized

Campos do Jordão, 28 de janeiro de 2017, dia da inauguração da Ned Trail, depois de 20 dias consecutivos de chuva, amanhece o dia azul com sol brilhando! Os convidados da Specialized chegavam, alguns da equipe do Zoom Bike Park realizando retoques finais e o grupo reunido esperando o sinal verde para a inauguração da trilha, para a primeira descida completa. O grupo chegou ao portal de início, recebeu um briefing e o João Firmo da Specialized e eu cortamos a  fita inaugural, com o César Roberto “puxando” a galera para a estreia.

Somos suspeitos em afirmar, mas esta é uma trilha muito especial, muito legal. É parte da realização de um desejo de ter trilhas comparáveis com as melhores do mundo e com o suporte da Specialized Brasil, demos esse passo. Mas sem o apoio da família Eisenlohr, especialmente da Lígia, que acolheu o projeto do Zoom Bike Park, nada disto seria possível. Aqui registramos um agradecimento muito especial a Specialized, por meio de diversas pessoas e para a Lígia e família!

Apesar do texto ser longo, representa apenas um resumo deste processo de construção da trilha “Ned Trail” no Zoom Bike Park. Mas achamos importante registrar, é parte importante de nossa história e quem sabe pode vir a inspirar outras pessoas a construir mais trilhas para o nosso mountain bike Brasil a fora.

 


Infográfico Construção Ned Trail